Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Causas imateriais da crise

Oficialmente, esta crise deve-se a crimes e asneiras do sistema financeiro motivados sobretudo por excesso de mercado e falta de regulação. Não há discurso que não o afirme.

Longe de mim negar tais causas, embora, por natureza, desconfie que hecatombes desta dimensão se fiquem apenas a dever a uma ou duas causas. Do meu ponto de vista, a crise resulta de muito mais cambiantes e variantes, como, aliás, todas as crises que historicamente atravessámos.

Curiosamente, muito se fala da crise de valores, mas pouca importância se lhe atribui quando se trata de analisar a falta de confiança dos mercados, as falências e o desemprego. E, no entanto, a crise de confiança é ela própria uma parte da crise dos valores. Sem valores seguros - como a probidade, a justiça, a temperança, a palavra, a prudência - não há confiança.

O sistema financeiro, sendo responsável por parte dessa quebra de confiança, foi também ele próprio vítima de uma ideologia dominante que pouca ou nenhuma atenção deu a estes valores tradicionais. Aliás, veja-se como na arte, nas ciências sociais, na comunicação, a ideia de virtude foi sendo abandonada em favor de conceitos a que chamámos pós-modernos.

Ao mesmo tempo que o relativismo negava uma verdade exterior a nós, para a colocar dependente do observador e em plano equivalente a outros valores, as principais âncoras da nossa sociedade eram arrancadas. O politicamente correcto, espécie de ditadura da linguagem, juntou-se com ideias generosas mas insustentáveis de que os direitos são inalienáveis e prevalecem sobre os deveres, que no geral se resumem ao pagamento (se tal não puder ser evitado) de impostos.

Conceitos como aforro ou caridade quase acabaram, assim como a ideia de que as recompensas se obtêm após um tempo alargado de esforço; na nossa sociedade as recompensas têm de ser imediatas, assim como na economia.
A filosofia, a arte e parte das ciências (sobretudo as ciências sociais) deixaram de reflectir a realidade, para reflectirem reflexões, num jogo infinito e cada vez mais distante do homem. Ao mesmo tempo, as construções naturais - da família à sexualidade - foram consideradas meras preferências ou opções e, em consequência, substituíveis por modelos diferentes.

Estas ideias inundaram as universidades, os meios de comunicação, as conversas bem pensantes e estabeleceram um sistema do qual é difícil, perigoso e não recompensador discordar.

Não foi só o sistema financeiro que contribuiu para esta crise.

Assim como não basta refazê-lo para que a crise termine.

Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Está bem... façamos de conta

Já recebi este e-mail vezes sem conta. Aqui fica a crónica de
Façamos de conta que nada aconteceu no Freeport.

Que não houve invulgaridades no processo de licenciamento e que despachos ministeriais a três dias do fim de um governo são coisa normal.

Que não houve tios e primos a falar para sobrinhas e sobrinhos e a referir montantes de milhões (contos, libras, euros?).

Façamos de conta que a Universidade que licenciou José Sócrates não está fechada no meio de um caso de polícia com arguidos e tudo.Façamos de conta que José Sócrates sabe mesmo falar Inglês.

Façamos de conta que é de aceitar a tese do professor Freitas do Amaral de que, pelo que sabe, no Freeport está tudo bem e é em termos quid juris irrepreensível.

Façamos de conta que aceitamos o mestrado em Gestão com que na mesma entrevista Freitas do Amaral distinguiu o primeiro-ministro e façamos de conta que não é absurdo colocá-lo numa das "melhores posições no Mundo" para enfrentar a crise devido aos prodígios académicos que Freitas do Amaral lhe reconheceu.

Façamos de conta que, como o afirma o professor Correia de Campos, tudo isto não passa de uma invenção dos média.

Façamos de conta que o "Magalhães" é a sério e que nunca houve alunos/figurantes contratados para encenar acções de propaganda do Governo sobre a educação.

Façamos de conta que a OCDE se pronunciou sobre a educação em Portugal considerando-a do melhor que há no Mundo.

Façamos de conta que Jorge Coelho nunca disse que "quem se mete com o PS leva".

Façamos de conta que Augusto Santos Silva nunca disse que do que gostava mesmo era de "malhar na Direita" (acho que Klaus Barbie disse o mesmo da Esquerda).

Façamos de conta que o director do Sol não declarou que teve pressões e ameaças de represálias económicas se publicasse reportagens sobre o Freeport.

Façamos de conta que o ministro da Presidência Pedro Silva Pereira não me telefonou a tentar saber por "onde é que eu ia começar" a entrevista que lhe fiz sobre o Freeport e não me voltou a telefonar pouco antes da entrevista a dizer que queria ser tratado por ministro e sem confianças de natureza pessoal.

Façamos de conta que Edmundo Pedro não está preocupado com a "falta de liberdade".

E Manuel Alegre também.

Façamos de conta que não é infinitamente ridículo e perverso comparar o Caso Freeport ao Caso Dreyfus.

Façamos de conta que não aconteceu nada com o professor Charrua e que não houve indagações da Polícia antes de manifestações legais de professores.

Façamos de conta que é normal a sequência de entrevistas do Ministério Público e são normais e de boa prática democrática as declarações do procurador-geral da República.Façamos de conta que não há SIS.

Façamos de conta que o presidente da República não chamou o PGR sobre o Freeport e quando disse que isto era assunto de Estado não queria dizer nada disso.

Façamos de conta que esta democracia está a funcionar e votemos.

Votemos, já que temos a valsa começada, e o nada há-de acabar-se como todas as coisas.

Votemos Chaves, Mugabe, Castro, Eduardo dos Santos, Kabila ou o que quer que seja.Votemos por unanimidade porque de facto não interessa.

A continuar assim, é só a fazer de conta que votamos.

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Frase da semana

imagem de Sophy Sá

Nunca é tarde demais para ser aquilo que sempre se desejou ser.

George Eliot

A Metamorfose do Homem Apaixonado

imagem de JP Martins


A paixão desenvolve a sensibilidade; torna o rústico amável e dá coração ao poltrão. No ser mais miserável e mais abjecto, instilará a audácia e a força de desafiar o mundo, por pouco que ele seja encorajado pelo ser amado. Dando a outro, ele o dá mais a ele próprio. É um homem novo, com percepções novas, perspectivas novas e mais vivas, e uma solenidade religiosa no carácter e objectivos.

Ralph Waldo Emerson, in 'O Amor'

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

A interpretação em rádio

A Interpretação do Tempo iniciou, passada segunda-feira, uma nova era.

A convite da Rádio Campanário, iniciei um programa sobre actualidade. Assim sendo, o programa tem o mesmo nome do blogue e segue as mesmas linhas de orientação. Aqui serão editados os textos lidos nos 90.6fm da Campanário.

Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

Portugal vive uma encenação?

Coerência e verdade procuram-se.

Ainda sem saber se o estudo sobre a educação foi ou não realizado pela OCDE, e já que, assumindo o Governo que o é, credibilizando de uma maneira quase idolatrável dita instituição, deixo a questão: a OCDE fez um estudo (ver aqui) em que dava conta que Portugal é um dos países com maiores desigualdades na distribuição de rendimentos pelos cidadãos, em paralelo com os Estados Unidos e apenas atrás da Turquia e do México.
Numa época em que a classe média sufoca, fica a questão: não merecia também este estudo uma atenção especial, medidas de reflexão e soluções pomposamente apresentadas pelo governo? Assim, quando as soluções fossem apresentadas, todos nós poderiamos dizer (acreditando nas palavras) "Bravo". Até lá, fica a sensação de estarmos a comer gato por lebre, dia após dia.

Moedas de troca



Toma lá, dá cá. O PS atirou com o caso BNP ao PSD e ao Presidente, estes respondem como o caso Freeport, e nós assistimos às fábricas e às empresas a fechar todos os dias.

Educação para as estatísticas ou não?

2 de Dezembro de 2008





O presidente da Agência Nacional para a Qualificação (ANQ), Luís Capucha, reconheceu hoje que é preciso "acelerar" o ritmo da certificação de adultos para alcançar o objectivo de um milhão de certificados em 2010, no âmbito do Programa Novas Oportunidades.
Desde Novembro de 2006 até Novembro de 2008 tem havido uma média de 4000 adultos certificados por mês. "A este ritmo chegaremos a 2010 com 248.398 certificados", disse Luís Capuchas, no II Encontro Nacional de Centros Novas Oportunidades, considerando "impensável ficar com esta dinâmica". Luís Capuchas defendeu a necessidade de "crescer" para uma média de 29.900 adultos certificados por mês, o que significa que tem de se "multiplicar por sete" o número de certificados atribuídos para se atingirem as metas traçadas pelo Programa Novas Oportunidades.



José Sócrates - 26/01/09


Que pobreza de debate político, que lamentável a atitude dos partidos políticos de dizerem que lá está o Governo a trabalhar para as estatísticas, como se as estatísticas não fossem importantes", criticou, enfatizando que prefere a existência da medição do sucesso das medidas à "ausência de medição".Que pobreza de debate político, que lamentável a atitude dos partidos políticos de dizerem que lá está o Governo a trabalhar para as estatísticas, como se as estatísticas não fossem importantes", criticou, enfatizando que prefere a existência da medição do sucesso das medidas à "ausência de medição".


Em que ficamos?
Ainda vale a pena falar em facilitismo no ensino?

Esta canalha!

Diría o meu avô, se estivesse entre nós, coçando a cabeça. É tão pura e simplesmente vergonhosa a forma como os nossos políticos (de lés a lés) debatem o futuro do nosso país e de todos nós (é só ver o debate na AR!!!). Ou melhor, não debatem... "é verdade", "é mentira" "tu é que és" ... "não, tu é que disseste"... E com "Freeport" e outros casos, estará a nascer um novo "menino guerreiro" a quem todos querem mal?


O resto dos portugueses cá continuarão a trabalhar e sofrer na pele a crise económica e de políticos sérios, que os há, mas que nem se notam no meio de tanta escumalha.

Difícil é fazer pior

Que aqui o amigo Bush, mas rie e relembre os melhores momentos (clique aqui).
Pronto, pronto, também não é preciso ficar assim...